A ideia de erguer esta escultura nasceu da Associação Serras da Ilha, anteriormente denominada Associação de Criadores de Gado da Freguesia da Ilha, em colaboração com o Sr. Padre Bernardino, com o propósito de prestar uma justa e merecida homenagem aos pastores da freguesia da Ilha, homens que, ao longo de gerações, dedicaram a sua vida às serras da Madeira e desempenharam um papel fundamental na história, na economia e na identidade cultural da nossa terra.
A origem desta homenagem remonta ao ano 2000, data da constituição da então Associação de Criadores de Gado da Freguesia da Ilha, fundada por Manuel Marques de Gouveia, Manuel de Assunção Marques Pedro, Manuel de Jesus Vieira, Manuel Isidro Marques da Silva e Lourenço Marques Caldeira da Silva. Todos eles tinham uma forte ligação à pastorícia, quer por terem exercido esta atividade, quer por serem descendentes de famílias de pastores, conhecendo profundamente os costumes, as dificuldades e as tradições associadas à vida nas serras.
Foi precisamente entre estes homens, unidos pelo respeito pela memória dos seus antepassados e pelo desejo de preservar um património que corria o risco de ser esquecido, que nasceu a ideia de criar um memorial dedicado aos pastores da freguesia da Ilha. Anos mais tarde, este sonho encontrou um importante impulsionador na pessoa do Sr. Padre Bernardino, cuja sensibilidade para a valorização do património humano e cultural da freguesia foi determinante para que esta homenagem se tornasse realidade. Onde ele próprio fez o primeiro esboço para realizar esta escultura.
Entre as muitas histórias dos pastores da Ilha, destaca-se a de José João de Sousa, um homem humilde, corajoso e lutador.
Quando o Estado tentou tomar posse dos terrenos do Montado das Serras da Ilha, José João levantou-se para defender aquilo que sustentava o trabalho e a vida dos pastores. Reuniu outros pastores, muitas vezes no adro da igreja, e juntos foram até ao Tribunal de São Vicente lutar pelos seus direitos.
Com coragem, união e determinação, conseguiram vencer esta batalha e manter os terrenos das serras nas mãos dos pastores da freguesia da Ilha, que até aos dias de hoje continuam a pertencer à comunidade.
Se não fosse este homem, este pastor de grande garra e determinação, poderíamos ter perdido tudo aquilo que hoje temos. José João de Sousa ficou assim na memória das gentes da Ilha como um homem que nunca teve medo de lutar pela sua terra, pelos seus direitos e pelo seu povo.
Esta escultura, concebida pelo escultor Luís Paixão, representa muito mais do que a figura de um pastor. É um símbolo da coragem, da resistência, do espírito de sacrifício e da dedicação de todos aqueles que, durante séculos, percorreram as serras da Madeira, contribuindo para o sustento das suas famílias e para o desenvolvimento da freguesia da Ilha.
Esta homenagem representa, assim, todos os homens que, ao longo de gerações, percorreram as serras da nossa freguesia e do nosso concelho. Os pastores deslocavam-se desde a freguesia da Ilha, passando pelo Pico Alto, Vale da Lapa, Morno, Levada da Palha Carga, Cabeço dos Cavacos, Terreiro Queimado, Semagral, Cova do Falso, Lapa Furada, Homem em Pé e até ao Pico Ruivo.
Muitas vezes permaneciam vários dias nas serras, sobretudo durante a época das tosquias, pernoitando nas furnas que ainda hoje podem ser encontradas em alguns locais do Semagral. Ao nascer do dia, retomavam o trabalho, dedicando-se às tosquias e ao pastoreio, enquanto as cabras, vindas do Pedregal, do Homem em Pé e da Lapa da Furada, eram arrebanhadas, ou seja, reunidas e conduzidas até à freguesia da Ilha.
A vida destes homens era extremamente difícil. Para se ter uma ideia das dificuldades que enfrentavam, quando subiam da Ilha até ao Pico Alexandre para alimentar os porcos criados na serra, transportavam às costas batatas-doces e milho. Contudo, devido à fome que frequentemente sentiam, acabavam por comer parte desses alimentos durante a caminhada.
Muitas vezes faziam estes percursos descalços, enfrentando o frio e as intempéries. Levavam apenas uma saca de lona para se protegerem, cordas às costas para auxiliar no trabalho e eram sempre acompanhados pelo seu fiel cão, indispensável para reunir e guardar as cabras e as ovelhas.
Durante o mês de junho realizavam-se as tosquias. As famílias reuniam-se no Semagral, onde permaneciam de um dia para o outro. Acendiam uma fogueira para cozinhar e aquecer-se e aproveitavam esses momentos de convívio para conversar, fortalecer os laços entre vizinhos e ajudarem-se mutuamente. No entanto, também surgiam algumas discussões relacionadas com a marcação do gado, pois acontecia, por vezes, alguém marcar uma ovelha ou uma cabra que não lhe pertencia.
Era igualmente no Semagral que as ovelhas eram reunidas para serem tosquiadas. Já na zona da Lapa Furada eram arrebanhadas as cabras. No mês de setembro, algumas eram conduzidas até ao Pedregal para garantir a subsistência das famílias. A carne era cortada em tiras finas e colocada ao sol para secar ou conservada com sal, assegurando alimento para os meses seguintes.
Pelo São Martinho realizava-se uma nova seleção dos animais. As cabras prenhas eram trazidas para a freguesia da Ilha, onde passavam o inverno em segurança. Desta forma, os proprietários podiam acompanhar os partos e prestar auxílio sempre que necessário. Durante esse período, os animais permaneciam presos junto às casas e, depois de criarem, regressavam novamente às serras no mês de abril.
Nada era desperdiçado destes animais. A pele, depois de curtida, transformava-se em couro, utilizado no fabrico de sacos, bolsas, correias, bainhas para facas e diversos objetos do quotidiano.
A lã era aproveitada na tecelagem tradicional para produzir mantas, roupas, casacos, coletes, calças e os característicos barretes de orelhas, indispensáveis para proteger os pastores do frio das montanhas.
O leite era utilizado para consumo direto e para a produção de manteiga e queijo, alimentos fundamentais na alimentação das famílias.
Até os ossos das cabras e das ovelhas eram, por vezes, transformados em pequenos utensílios de uso diário. Os cornos das cabras e dos carneiros serviam para fabricar cabos de facas, colheres e outros objetos, enquanto os cornos dos bovinos, devido ao seu maior tamanho, eram frequentemente utilizados como recipientes para beber ou, em épocas mais antigas, para guardar pólvora.
As tripas eram cuidadosamente limpas e aproveitadas na preparação de enchidos. O sebo e a gordura serviam para cozinhar, fabricar sabão caseiro e lubrificar ferramentas e peças de couro.
Também o estrume tinha um valor incalculável. Num território montanhoso como a Madeira, onde os solos necessitavam de fertilização constante, o estrume das cabras e das ovelhas era um dos adubos naturais mais importantes, sendo espalhado pelos terrenos agrícolas para aumentar a sua fertilidade.
Em resumo, uma cabra ou uma ovelha representava muito mais do que uma fonte de carne. Dela obtinham-se alimentos, leite, queijo, manteiga, lã para vestuário, couro para diversos utensílios, ossos e cornos para pequenas peças artesanais, gordura para diferentes usos e estrume para fertilizar os campos. Estes animais constituíram um recurso essencial para a economia familiar madeirense e desempenharam um papel determinante na sobrevivência de muitas famílias até meados do século XX.
Esta escultura perpetua a memória desses homens e mulheres que, com enorme sacrifício, coragem e dedicação, fizeram das serras da Madeira o seu local de trabalho e ajudaram a construir a história, a cultura e a identidade da nossa ilha. É uma homenagem justa a um modo de vida que jamais deverá ser esquecido.
Que esta escultura permaneça como um testemunho de gratidão e respeito para com todos os pastores da freguesia da Ilha e das suas famílias. Que as gerações futuras encontrem neste monumento a memória de um modo de vida marcado pelo trabalho, pela humildade e pela perseverança, valores que ajudaram a construir a identidade da nossa terra e que jamais deverão ser esquecidos.
José Luís Alves Paixão nasceu na freguesia de Machico, onde iniciou os seus estudos. Formou-se no Magistério Primário do Funchal e licenciou-se em Escultura pelo Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira, em 1986. Exerceu uma longa carreira como professor entre 1974 e 2014, lecionando no ensino básico, secundário, Magistério Primário e Universidade da Madeira, nas áreas de Português, Educação Visual, Desenho, História da Arte e Metodologia. Desempenhou também vários cargos de coordenação pedagógica.
Na política, foi deputado à Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira pelo PSD entre 1988 e 2000, presidindo à Comissão Especializada de Educação e integrando a Comissão de Turismo, Cultura e Emigração.
Como escultor, é autor de diversas obras públicas espalhadas pela Madeira, Portugal continental e Sydney, utilizando materiais como bronze, pedra, madeira e fibra de vidro. Participou ainda em várias exposições de desenho e, em 1988, recebeu um louvor público do Presidente do Governo Regional da Madeira pelo seu contributo para as artes.
Foi também compositor de canções infantis, distinguindo-se em festivais da canção e recebendo, em 1986, o prémio da RTP para a melhor canção infantil no Festival da Madeira. Paralelamente, colaborou na imprensa regional como cronista, ilustrador e correspondente, mantendo igualmente ligação à comunidade madeirense na Austrália.



